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Edições
:: Fonte: Revista Lume Arquitetura - edição número 3
Entrevista: CIE Brasil
Democratizando o desenvolvimento tecnológico
Por: Adriana Felicíssimo
Duas luminárias ou lâmpadas quase iguais garantem o mesmo desempenho? São compatíveis com o mesmo sistema? Têm características em comum além de serem parecidas visualmente?
Dúvidas como estas dificultam o trabalho de luminotécnicos, fazem com que um produto de qualidade seja deliberadamente substituído por um "similar" muito inferior, atrapalham o desenvolvimento do mercado e desfavorecem a possibilidade de exportação.
O caminho para as respostas a tais perguntas passa por terminologia, normatização, padronização, estudos, medições e pesquisa. É o caminho que a CIE Brasil está empenhada em trilhar, juntamente com representantes de todos os setores ligados à iluminação no País.
Por Cláudia Cavallo
A CIE - Comissão Internacional de Iluminação - é uma entidade criada em 1903, reconhecida por vários organismos internacionais como órgão oficial de normatização na área da ciência de metrologia da luz e da cor. O Brasil faz parte da Comissão, sendo representado, no momento, pelo Inmetro.
Mas, afinal, o que exatamente esta Comissão pode fazer pelo mercado?
Como é formada? Por quais pessoas? Que benefícios pode trazer para o mercado?
A presidente da CIE Brasil e chefe da Divisão de Metrologia Óptica do Inmetro, Iakyra Borrakuens C. Bougleux responde a estas e outras perguntas na entrevista a seguir:
Lume Arquitetura: O que é a CIE e a que exatamentese destina?
Iakyra: É uma entidade internacional que tem como objetivo promover discussões para o desenvolvimento científico e tecnológico nos campos da visão, iluminação e colorimetria.
LA: A CIE é um órgão de normatiização?
Iakyra: A CIE publica estudos e normas. Assim como a ABNT tem as NBR, a CIE tem as normas, juntamente, com a IEC e a ISO, além das publicações técnicas. É também uma organização reconhecida por outros órgãos internacionais europeus e americanos, entre os quais a ISO - International Standardization Organization, IEC - International Eletrothecnical Commission, CEN - Comissão Européia de Normalização e BIPM - Bureau Internacional de Pesos e Medidas. Como a base teórica nesta área de iluminação começou com a CIE, pessoas que trabalham com pesquisa e desenvolvimento de produtos neste segmento baseiam-se em publicações da Comissão datadas do começo do século passado. Devido ao avanço tecnológico, a terminologia na área tem que ser revisada, e este também é um trabalho da CIE.
LA: Como é o processo de se criar uma norma brasileira ou adotar uma norma internacional?
Iakyra: Para se elaborar ou revisar uma norma é necessária a formação de uma comissão de estudos e convém que haja participação de pessoas de várias áreas, além da utilização de referências já consolidadas. Dependendo da norma, os critérios internacionais são preservados. Quando é terminado o trabalho da Comissão de Estudos, a norma é disponibilizada para o público e tem um prazo para que sejam emitidas opiniões a respeito. O coordenador da comissão de estudos é quem direciona o consenso. Este é
um trabalho que estamos fazendo na CIE Brasil.
LA: Ter representatividade dentro da CIE Internacional significa que podemos fazer com que normas internacionais sejam criadas já adequadas ao nosso mercado, em vez de termos que "importar" normas que precisam ser adaptadas?
Iakyra: Na CIE são realizadas pesquisas científicas, tecnológicas e metodologias nas áreas de interesse, sendo adotadas em diversos países, sendo que, os países que tem representação na CIE têm poder de voto nas divisões internacionais e na
assembléia geral da Comissão, que discute os rumos da instituição a cada quatro anos.
LA: Por enquanto, o Inmetro está arcando com o custo da anuidade, viabilizando reuniões... Se tiver que participar da CIE Brasil com investimentos, que benefícios a Indústria Brasileira e o mercado terão efetiva- efetivamente? O retorno justificará o investimento?
Iakyra: O Inmetro é uma autarquia federal, um órgão do governo e está pagando a anuidade, porque considera importante para o País a participação do Brasil na CIE. O retorno deste investimento se dá através da discussão técnico-científica e da aplicação industrial desta área no País. A CIE não está sendo coordenada apenas por pessoas do Inmetro, mas também, profissionais ligados diretamente à Indústria, setores privado, público, acadêmico e associações, ou seja, por profissionais de vários segmentos. Hoje, com a globalização, o país tem enfrentado barreiras técnicas em todas as áreas. No entanto, se estivermos em conformidade com normas internacionais, o produto nacional poderá disputar espaço no mercado externo.
LA: Como está o andamento da CIE Brasil? O que já foi feito e quais são os próximos passos?
Iakyra: O Inmetro assumiu a Comissão no ano passado, realizou o pagamento das anuidades a partir de 2002 e viabilizou a primeira reunião, em março, quando foram nomeados presidente, coordenadores, secretários e consultores da CIE Brasil. Nesta
primeira reunião, foram consolidadas as Divisões e iniciados os comitês técnicos. Achamos que seria interessante revisar a norma NBR 5461, referente à terminologia em iluminação, porque é uma norma de referência - qualquer outro trabalho está invariavelmente vinculado a ela. Por ser tão importante, todos os profissionais que já estão fazendo parte da CIE Brasil comprometeram-se a participar da Comissão de Estudos montada para a revisão desta norma, que está sendo feita através do COBEI. Já fizemos duas reuniões e estamos partindo para a terceira. Estamos criando a logomarca CIE Brasil e o estatuto - primeiro passo para sua oficialização - e preparando a página do Comitê dentro do site do Inmetro. Nesta webpage, serão divulgadas as ações da CIE,
relação do que há disponível na biblioteca, informações sobre normas, entre outras. Para que o Comitê tenha mais mobilidade é preciso gerar recursos. Estes recursos podem vir da venda de publicações da CIE, além da realização de eventos na área, como, por
exemplo, o segundo Luz e Cor que realizamos no ano de 2002, quando lançamos a idéia de formação da CIE Brasil. Estamos montando, também, uma biblioteca com as publicações acervo da CIE Brasil, que poderá ser consultada por todos os profissionais na área.
LA: Isto significa que a CIE Brasil vai poder atender à necessidade que tantos profissionais brasileiros têm com relação a fontes de pesquisa? De que tratam estas publicações? Serão traduzidas?
Iakyra: Há publicações sobre iluminação de túnel, embelezamento de cidades, iluminação de interiores, quadras de esportes... uma variedade enorme de temas. São publicações importantes, base para qualquer trabalho. Por enquanto, é vendido o original, mas já está sendo solicitado à CIE Internacional a autorização para tradução de algumas publicações.
LA: O Inmetro adquiriu um equipamento de medição que será colocado à disposição das indústrias. Que equipamento é este? Para que serve? Como poderá ser utilizado?
Iakyra: A indústria de iluminação usa há muito tempo esfera integradora para medidas de fluxo luminoso. No entanto, é necessário, um goniofotômetro, para que a padronização primária na área seja realizada. Usando técnicas goniofotométricas, que demandam prérequisitos e condições de rastreabilidade e confiabilidades metrológicas maiores do que aquelas correspondentes a medidas com esferas integradoras, o Inmetro poderá prover a rastreabilidade no país, nesta área. Além disso, com o goniofotômetro, será possível realizar medições de vários tipos de lâmpadas e luminárias. As obras no laboratório que vai receber o goniofotômetro estão sendo iniciadas e o fornecedor alemão só está esperando o sinal verde para embarcar para o Brasil o equipamento. Está sendo feito, também, um investimento em treinamento. Dois técnicos do Inmetro serão enviados para Portugal e Alemanha, em setembro de 2003, para aperfeiçoarem-se nas técnicas de medição com o equipamento e sua operacionalização. Pela previsão do Inmetro, o serviço estará disponível em meados de 2004, quando toda a Indústria será contactada. Além disso, vamos gerenciar uma comparação nacional na área.
LA: O seu discurso mostra um Inmetro a serviço da Indústria e não o Inmetro fiscalizador que vemos no Fantástico antástico - "terror dos fabricantes que enganam o consumidor"...
Iakyra: O Inmetro não é somente um órgão fiscalizador. Muito pelo contrário, atua como um órgão de pesquisa e desenvolvimento nas diversas áreas,sendo um parceiro nos vários segmentos. Como um exemplo disso, este ano demos início aos chamados painéis setoriais, apurando quais são as principais necessidades de diversos setores e como o Inmetro pode cooperar com os mesmos. Estes painéis têm também o objetivo de desfazer conceitos equivocados sobre o Instituto. Já realizamos painéis nas áreas de tintas e açúcar, e pretendemos organizar painéis nas áreas de telecomunicações, gráfica e iluminação, ainda este ano. O primeiro painel setorial foi difícil. As pessoas não entendiam muito bem a função do Inmetro. Depois foi ficando mais fácil, fomos
conseguindo maior aceitação. Hoje, já vemos a Indústria chegando mais perto... É muito legal.
LA: A Indústria Brasileira tem se mostrado interessada no investimento em pesquisa? Pagar pelos serviços prestados pelo Inmetro?
Iakyra: Acho que o maior problema hoje é orçamento, mas também existe o conceito equivocado de que o investimento em pesquisa e controle de qualidade não está ao alcance da Indústria Nacional - é privilégio de empresas de países de Primeiro
Mundo. Desfazer mais este mito faz parte do trabalho que temos feito com os painéis e com a CIE Brasil. É uma semente que o Inmetro e a CIE Brasil vêm plantando e a própria Indústria Nacional vai colher os frutos.
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