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Opinião
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Niemeyer
As vibrações da obscuridade
Por José Canosa Miguez
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“Minha preocupação foi projetar
essa residência com inteira liberdade, adaptando-a
aos desníveis do terreno, sem o modificar, fazendo-a
em a permitir que a vegetação nelas penetrasse,
sem a separação ostensiva da linha reta”. “E criei
para as salas de estar uma zona em sombra, para
que a parte envidraçada evitasse cortinas e a
casa fi casse transparente, como preferia”.
Oscar
Niemeyer
Ao buscar organizar o turbilhão de referências para
consolidar a minha opinião sobre a luz e as obras de Niemeyer,
chegou vívida à lembrança um encontro com o mestre Oscar na
célebre Casa das Canoas, no verão do ano 2000. Em vias de
ali receber a visita de amigos arquitetos estrangeiros em visita à
cidade, ele pedira o apoio do então Prefeito do Rio - Luiz Paulo
Conde - para prover o local de uma iluminação especialmente
adequada para a residência, embora para a duração fugaz de
um jantar.
Indicado para atender ao pedido, surpreso e feliz com a
oportunidade, troquei por ela a burocracia do cargo de presidente
da Rioluz e, num quente final de manhã, subi a Floresta da Tijuca
com mestre Oscar, desfrutando, no conforto do carro com ar
condicionado, de seu papo descontraído, sincero e desbocado,
indignado com as mazelas urbanas que percebíamos no
percurso e emitindo comentários aos gestores públicos anteriores
que muito faziam rir meu motorista.
Ao longo do percurso, preocupado com o curto prazo para
executar a instalação, eu refletia sobre as espetaculares imagens
diurnas de seus projetos, que correm o mundo e encantam
pela surpresa das curvas brancas contra o céu azul, volumes
escultóricos determinando sombras sempre mutantes ao longo
do dia, privilégio do mais espetacular ponto de luz que conheço: o
Sol. Efeitos contrários ao da visão noturna das sombras evitadas
ou congeladas por nossos projetores de luz artificial.
Lá em cima, o tom da conversa ganhou a calma da paisagem
tropical, e ele revelou o que pretendia: que a iluminação incidisse
apenas sobre a mata do entorno, compondo o mise-en-scène
para que a casa por ele arquitetada se revelasse com a simples luz emanada de seu interior pelas transparências e pela sutil luz
difusa que seria refletida pela floresta suavemente incandescente.
Ele pedia uma iluminação muito ao jeito do que um concepteur
lumière francês chamaria de a la manière noire, em que a
edificação permanece na obscuridade, avaliada mais pela
imaginação do observador do que pela evidência provocada
pela luz.
Atendi ao seu pedido, e simplesmente posicionei os
projetores nas bases das árvores da encosta em declive,
invisíveis para quem estivesse na casa, que deveria permanecer
na penumbra transparente a ser instituída em seu exterior,
ambiência adequada ao convívio com os amigos. O resultado
deve ter agradado ao mestre, que dias depois me presenteou
com uma de suas recentes e sensuais esculturas em ferro.
Anos depois, estas recordações evocam a releitura do
fascinante ensaio “Elogio da Sombra”, de Junichiro Tanizaki,
Nobel japonês de literatura. Suas observações sobre a iluminação
ocidental, sempre ansiosa por tudo revelar, nos conduzem aos
valores orientais da obscuridade: a obra de arte “não se destina
a ser admirada com um único olhar em um sítio iluminado, mas
sim adivinhada em um local escuro, sob uma claridade difusa
que, por instantes, lhe revele um ou outro pormenor, de forma
que estando a maior parte de sua suntuosidade constantemente
escondida na sombra, suscite ressonâncias indizíveis”.
Vibrações exatamente percebidas e estabelecidas por
Niemeyer para aquele jantar na Casa das Canoas.
José Canosa Miguez é arquiteto e lighting designer. Atua como consultor em iluminação urbana e arquitetônica. E-mail: jcmiguez@jcmiguez.arq.br
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